Sábado, Agosto 26, 2006
A velha peleja do sonho
p/ Cometa
Tal e qual Francenildo, Francelino deu as costas a seu Piauí e desceu Brasil a dentro em busca de tempo e recanto mais alvissareiros. Embora filhos da mesma pátria descuidada, nossos personagens têm pouco mais em comum que a terra de origem e a certeza de estarem ambos indexados nos registros de nossa recente história política.
O caseiro Francenildo, dito Nildo, apareceu como a pedra no caminho da mal simulada tranqüilidade republicana. Dependendo do ponto de vista, era o homem certo no lugar certo, ou o homem errado no lugar errado, ou não, como resumiria em brilhos o sexagenário Caetano. Sacudiu o tronco do poder central, espalhou fruta bichada pra tudo que é canto. Vendo de hoje, parece que sua integridade pouco habitual acabou produzindo mais calor que luz, isso a se julgar pelo cenário quase idêntico que vai reaparecendo quando findas as tempestades. Mesmo se o gesto de Nildo já tiver descido de vez pelo ralo de nossa amnésia coletiva, mesmo se a impunidade insistir em emprestar suas cores ao presente, ao menos, na certa, os gerenciadores dos poderes políticos por um tempo se farão mais prudentes quando da deleitosa apropriação dos bens e da paciência públicos.
Já Francelino, ao que sei, aportou nas Geraes em busca de estudo e vida nova. Por aqui casou-se, ganhou inscrição no que de ainda tradicional havia na família mineira, e graduou-se na matreirice que dava então personalidade singular à política local. Fez longa carreira legislativa, governou o povo que lhe havia adotado, e, enquanto mimava os militares golpistas, dirigiu a Arena, que ele afirmava ser o maior partido do ocidente, nem mais, nem menos. Tem aguçado faro quando o assunto é poder, mas não acredito que isso tenha algo a ver com o fato dele, nos dias de hoje, ocupar-se com as honrarias de sogro da Primeira Irmã do Estado. Não sou candidato a seu biógrafo, a lembrança que ora lhe devoto se deve à questão fundamental que um dia, em passado não recente, ele formulou. Questão que promove seu encontro inconsciente e misterioso com o conterrâneo Nildo, questão que sintetiza nossa perplexidade perene: ¿que país é esse?¿
Que melancolia é essa que não desgruda da cara brasileira, ainda agora quando se anuncia a reta final de um processo eleitoral determinante, que precisaria ser percebido com a importância que deveras tem? Que fatalismo é esse de pré-eleger entre nós, com ritos de devoção, presidente e governador, e fingir que o assunto saiu de pauta? Onde enterraram as velhas causas, nossas utopias? Onde esconderam o fogo encantado que incendeia os olhos de cada nova juventude, acendendo a determinação e a raiva indispensáveis quando se quer forjar qualquer futuro que valha a pena?
Que país é esse? Porque a indagação de Francelino, que se mereceria ora velha e surrada, continua central no universo pobre e bruto de Francenildo? Quem, como o PT e alguns antigos aliados, brotou sobre as ruínas da ditadura militar com aptidão e energia para denunciar as contradições e vícios de uma sociedade tão injusta; quem, como o PT e alguns antigos aliados, desenvolveu, em incontáveis instâncias, uma pedagogia política capaz de enfrentar tal questão e facilitar as efervescências da consciência cidadã; quem, como o PT e alguns antigos aliados, ainda ontem falava em futuro, agora parece agarrar-se, estranhamente deliciado, aos hábitos do poder e de seus tesouros.
Espalha-se, sobre essa arrancada do processo eleitoral, uma recorrente e escandalosa negação do que quer que se tente assemelhar a divergências ideológicas; conversa tida como boa, prestigiada, é a que se ocupa de competências individuais e choques de gestão. As trajetórias e as metas políticas, ao que parece, foram se fazendo indissociáveis, viessem seus agentes políticos do que um dia se chamou de progressistas, ou do que se chamou de conservadores: forças que se opunham, que tiravam sentido dessa oposição, e que um dia ousaram se denominar esquerda e direita.
E se o caro leitor, provável eleitor no outubro que se avizinha, abordar esse nosso tempo se deixando envolver por generosas causas, ou por projetos de sociedade que não rejeite seus sonhos, ah, então é bom se preparar para a trombada com muralhas de um cinismo, digamos assim, pós-moderno. É que, talvez angustiados pelo imobilismo de suas indescritíveis alianças, parceiros de ainda ontem não têm poupado sarcasmo quando do enfrentamento contra aqueles que continuam recorrendo às análises e ao discurso que, há pouco, partilhavam em quase consenso. Mas, como dizem bons mestres do pensar, o caminhar da vida e da história se faz também assim. Enriquecedor. Felizmente.
Paulinho Saturnino Figueiredo
Agosto 2006
posted by Paulim Comentarios:
19:25
|
Reflexões e memórias de um diferente... e quem não é? E por assim ser, senhoras e senhores, o que lhes apresentar? Esse blOg dEfiCIenTe.
|